Publicado por: sidnei walter john | 21 de dezembro de 2009

Evangelho segundo São Lucas 1,46-56 terça feira 22.12.09


22.12.09 – terça feira

Coisa linda é a correspondência: ela nos proporciona momentos divinos; ela nos une em espírito às pessoas mais queridas, permite trocar, a nosso bel prazer, as suaves e ternas palavras da amizade, oferece-nos os meio para transmitir todos os sentimentos e todas as pulsações do coração. (L 3) São José Marello

 Evangelho:
Leitura do santo Evangelho segundo São Lucas 1,46-56

“Então Maria disse:
– A minha alma anuncia a grandeza do Senhor.
O meu espírito está alegre por causa de Deus, o meu Salvador.
Pois ele lembrou de mim, sua humilde serva!
De agora em diante todos vão me chamar de mulher abençoada, porque o Deus Poderoso fez grandes coisas por mim. O seu nome é santo, e ele mostra a sua bondade a todos os que o temem em todas as gerações.
Deus levanta a sua mão poderosa e derrota os orgulhosos com todos os planos deles.
Derruba dos seus tronos reis poderosos e põe os humildes em altas posições.
Dá fartura aos que têm fome e manda os ricos embora com as mãos vazias.
Ele cumpriu as promessas que fez aos nossos antepassados e ajudou o povo de Israel, seu servo.
Lembrou de mostrar a sua bondade a Abraão e a todos os seus descendentes, para sempre.
Maria ficou mais ou menos três meses com Isabel e depois voltou para casa.

Meditação:

 Encontramo-nos com duas mulheres extraordinárias. Maria de Nazaré e Ana, personagem que abre o livro de Samuel. Ana entrega seu filho ao santuário, consciente de que é um dom de Deus. Em seu gesto nos convida a não nos apropriarmos dos dons de Deus, mas reconhecê-los e oferecê-los a ele e aos irmãos.

 Lucas encerra a narração da visitação de Maria com o Magnificat (Minha alma glorifica o Senhor). É uma oração de Maria a Deus, que caminha sempre com seu povo. É um canto:

- ao Deus que se fixa nela de modo pessoal, vinculando-a a seu projeto universal;
– ao Deus de misericórdia e justiça que derruba os poderosos e soberbos de seus “tronos”, e dá importância aos pobres e fracos.

 O Deus do evangelho se fixa em cada um de nós de modo pessoal para nos vincular a seu projeto de amor em favor da humanidade. A experiência pessoal de Deus não se concilia com um regozijo egoísta, mas abre o coração à consciência de pertencer a uma comunidade, um povo, um mundo. É um Deus de amor e justiça que nos chama a ser portadores de sua mensagem de paz e construtores de seu projeto de eqüidade e fraternidade.

Hoje lemos uma linda passagem do primeiro livro de Samuel: a entrega no santuário de Deus de um filho nascido milagrosamente de Ana, sua mãe estéril. Ela devolve a Deus o que Deus lhe havia dado, e oferece ainda um esplêndido sacrifício segundo o costume desses tempos arcaicos. O menino crescerá à sombra do santuário, educado pelos sacerdotes, e chegará a ser, por sua vez, juiz e profeta, sacerdote e líder de Israel, o protagonista de um momento tão delicado e complexo como foi a instauração da monarquia para o povo de Israel. A Samuel correspondeu ungir os dois primeiros reis, Saul e Davi.

A leitura de hoje tem sua continuação no cântico responsorial, tomado esta vez, não dos salmos como é costume, mas das mesmas palavras com que Ana deu graças a Deus por sua bondade (1Sm 2,1.4-8). O cântico expressa a alegria de uma mulher pobre e humilhada porque Deus a salvou, concedendo-lhe um filho. E certamente este cântico expressa os sentimentos de júbilo de tantos pobres e humildes, de tantos perseguidos injustamente, de tantos humilhados e ofendidos. Deus toma a defesa deles; seus planos não são como os nossos, nem seus critérios como os nossos critérios. “Ele, – o Senhor – dá a morte e a vida, dá a pobreza e a riqueza, humilha e exalta. Ele levanta do pó o miserável, ergue do lixo o pobre, para fazer assentar-se entre príncipes e receber um trono de glória”. É também nossa firme esperança de cristãos, neste Natal que já está bem próximo, aguardarmos um mundo de justiça e de paz, no qual colaboraremos em sua construção, com todos os homens de boa vontade, trazendo a mensagem do evangelho.

A leitura do evangelho é continuação do texto de ontem, o cântico do “Magnificat” que Maria entoa, claramente inspirado no cântico de Ana. Falou-se com um pouco de exagero, de seu caráter subversivo, transformou-se em oração diária da Igreja que o recita no ofício da tarde. Há até quem atribua poderes mágicos à sua recitação, como se fosse um talismã. Maria reconhece a grandeza de Deus, expressa sua alegria e seu agradecimento porque o Senhor se fixou em sua pequenez. Anuncia profeticamente os louvores que receberá de toda a Igreja, não por ela mesma, mas por aquilo que Deus realizou em sua pessoa. Maria antecipa o feliz anúncio que Jesus fará mais tarde, de que Deus tomará a defesa dos pobres, que dispersará os soberbos e derrubará do trono os poderosos, para enaltecer os humildes e encher de bens os famintos; que da riqueza dos poucos que a possuem não sobrará nada, porque será repartida entre os pobres. Trata-se de todo um programa de transformação do mundo que, dois mil anos depois do nascimento de Jesus, ainda não se realizou plenamente. E isso porque nós, cristãos, não levamos ainda a sério o evangelho; porque não nos empenhamos em anunciá-lo e realizá-lo. Fica ainda toda uma tarefa para este terceiro milênio que amanhece.

Alguém pode nos dizer que se trata de esperanças terrenas, reivindicações sociais que só afetam a vida terrena do homem, esquecendo-se de sua dimensão transcendente, de sua vocação espiritual… Deveríamos responder-lhes que a salvação de Deus começa a realizar-se aqui na terra, como o anunciaram Ana e Maria, como Jesus começou a realizá-lo pregando o evangelho aos pobres, curando-os de suas enfermidades e, inclusive, alimentando-os no deserto, quando deixam tudo para segui-lo. As santas mulheres da Escritura dão graças por tudo: pelo pão, pelos filhos, pela intervenção de Deus em favor dos pobres e humildes, por uma ordem social mais justa e igualitária, pelo cumprimento das promessas feitas no passado, pela possibilidade de enxergar o futuro com esperança e confiança, pela salvação total que envolve o corpo, a dignidade, a alma, os sonhos, as mais concretas e imediatas necessidades, mas também as mais recônditas e fundamentais, como descobrir que a vida tem sentido quando somos amados, e estar seguros de que o amor não morre nunca.

Façamos nossas as palavras de Maria nestas vésperas de Natal, e cantemos com ela o louvor de quem também fez em nós maravilhas. 

Reflexão Apostólica:

A resposta de Maria à saudação de sua prima Isabel que tradicionalmente designamos com o nome latino de “Magnificat”; é um salmo de ação de graças composto de citações e alusões ao Antigo Testamento, em especial do canto de Ana, a mãe de Samuel (cf. 1Sm 2,1-10).
O poema tem duas partes. A primeira é uma ação de graças pessoal de Maria: apesar da humildade e pobreza de sua vida, Deus pôs seu olhar nela, por isso será chamada bem-aventurada. Deus se serve muitas vezes de quem é simples e humilde para tornar presente sua salvação na história humana.

A segunda parte do canto expressa, pela boca de Maria, a ação de graças do povo de Israel; todas as promessas dadas a Abraão e seus descendentes se cumprirão agora neste menino que vai nascer. Lucas nos mostra neste canto de Maria um de seus temas favoritos: Deus tem compaixão dos pobres.
De fato, aqui não aparece apenas um louvor dos pobres, dos quais Maria é representante, mas uma concepção utópica da história na qual a misericórdia de Deus e a força de seu braço derrubam os ricos e soberbos e soerguem os empobrecidos e humilhados da terra.

O canto de Maria apresentado por Lucas em seu evangelho nos revela que, aos olhos de Deus, os preferidos são os que foram desumanizados e humilhados pelos poderes do mundo; Maria dá testemunho de que o Deus da Bíblia é aquele que se põe sempre do lado dos excluídos e marginalizados pelas estruturas de poder encarnadas na ordem social, econômico, cultural, religiosa, política, familiar…

Maria retoma um canto de libertação que certamente Isabel recitou durante toda a sua vida. Este é o canto da misericórdia de Deus, de um Deus que abertamente se colocou do lado daqueles que experimentaram o sentido de humanidade. Maria, portanto, passa a fazer parte dos personagens bíblicos que vivem descontentes diante dos modelos sociais de desigualdade impostos sobre o povo.

Este canto de Maria continua chamando hoje a atenção do povo cristão que dia-a-dia recita em sua oração esse projeto e desejo de ver o mundo e a história em total equilíbrio. Quando a humanidade puder viver este canto-projeto, poderemos experimentar em nossas vidas a irrupção de Deus que é misericórdia, entenderemos que a fidelidade de Deus vai “de geração em geração”.
Nossa grande tarefa hoje é redescobrir esse Deus que Jesus e Maria experimentaram, e atualizar seu projeto de misericórdia e justiça em meio a situações de miséria e de morte que se nos impõem desde os círculos de poder que regem os destinos da história e da humanidade.

Colocar-nos do lado de Jesus, ao estilo de Maria, a mulher fiel e comprometida com a causa da justiça, significa deixar atrás o modelo de cristianismo que vivemos baseados na segurança e na comodidade, para experimentar em nossa própria vida a sorte dos sem sorte, a realidade de miséria que vivem tantos irmãos e irmãs nossos. Não podemos continuar sendo cristãos sem incomodar-nos com a desigualdade, a injustiça, a fome, a morte e marginalização de nossos povos.

Que este tempo de advento nos sirva para potenciar a oração, mas não da forma neutra como rezamos até hoje; que seja uma oração para estar despertos e poder compreender os sinais dos tempos e começar a viver com resistência. A pedagogia de Deus, do Pai de Jesus, é bem clara no canto de Maria. Devemos assimilar essa pedagogia e estar do lado dos prediletos de Deus: os pobres. Esta época é propícia para conseguir dar um salto qualitativo em nossas vidas. Comecemos já!

Propósito:

Pai, faze-me sensível à espiritualidade daquela que escolheste para ser mãe de teu Filho, porque ela penetrou, de modo admirável, em teu mistério de amor.

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